Entrevista com Germana Viana

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Voltamos com mais uma das entrevistadas da Santos Comic Expo 2016, e é com imenso orgulho que apresento a vocês leitores, a minha quadrinista brasileira favorita Germana Viana.

Natural de Recife, Pernambuco, atualmente mora em São Paulo. É desenhista e roteirista, autora de Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço e integrante do coletivo de quadrinhos CBGibi. Trabalha ainda como ilustradora, letrista e designer para editoras como a Panini e a Jambô. Atualmente, está escrevendo e desenhando As Empoderadas, título de super-heroínas para o selo Pagu Comics, da Social Comics e também as histórias de detetive Clotilde e Marione.

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Nome, Idade e o que faz?

Meu nome é Germana Viana, tenho 44 anos e sou quadrinista.

 

Como surgiu a ideia de criação para os seus personagens?

Eu leio quadrinhos desde que sou muito nova, leio quadrinhos desde antes de saber ler, aquela coisa de criança de pegar quadrinho. Eu já trabalhava no meio dos quadrinhos a algum tempo, antes de começar a fazer meus próprios quadrinhos, só que eu já tinha esses personagens, no caso Lizzie Bordello e os Piratas do Espaço, eu já tinha elas criadas a muito tempo só que eu tinha muita vergonha de mostrar. O que é muito besta, porque eu não sou uma pessoa envergonhada, sou uma pessoa até bem tranquila, mas na hora de apresentar o meu trabalho, eu travei, não saia e eu ficava com vergonha, escondia e até uma hora que eu fui num FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) em 2013 e ai o George Perez elogiou meu trabalho e ai eu falei “cara, agora vai ou vai, e vamos embora fazer meus próprios quadrinhos, porque já sou do meio e to deixando de publicar por pura babaquice minha, por pura insegurança.”

 

Você acha que seus personagens refletem a sua personalidade e as suas ideias?

Sim, especialmente Lizzie Bordello. Elas refletem sim, é um amálgama de mim e das minhas amigas e tenho outros títulos também. Tipo as Empoderadas, que tá no especial Social Comics umas tem outras não, eu tive de fazer uma pesquisa muito ampla e sempre falo “sempre que se faz um personagem, você tem que pesquisar”. Por exemplo, na Lizzie Bordello tem uma personagem que é trans, então tive de fazer uma pesquisa muito legal e conversar com amigas trans e tal. Eu tomo cuidado, porque mesmo sendo humor, tenho que tomar cuidado para eu não roubar lugar de fala ou colocar alguma coisa que não seja responsável na boca da personagem.

Então tanto na Lizzie Bordello quanto nas Empoderadas, eu faço uma pesquisa muito grande. Nas Empoderadas, tenho uma personagem mãe e não sou mãe, sou mãe de cachorro e gato, e cachorro e gato não vão te julgar por ter tatuagem depois dos quarenta, não vão à escola e não vai achar estranho de você ser ciclista. É toda uma dinâmica e rotina que não tenho, então tenho de pesquisar e perguntar, ao mesmo tempo não posso roubar lugar de fala, porque tenho personagens negros, orientais… Então quanto ao discurso a respeito do mundo feminino, eu posso dar a opinião que for a partir disso tenho que ter muito cuidado no que vou pôr na boca das minhas personagens, senão, eu posso roubar – como já repeti mais de uma vez – lugar de fala ou falar algo irresponsável, que não é real. Tenho de ter noção dos privilégios que tenho por ser uma mulher branca.

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Qual o personagem que mais gostou de desenhar, seu favorito?

Não consigo escolher um. Gosto de todas, eu gosto da Capeta pra caramba, era pra ela ser vilã na Lizzie Bordello e terminou sendo vilã mais ou menos. Adoro a personagem Deus. E, diferente de alguns dos autores de sci-fi, que se preocupam mais com o cenário, eu me preocupo muito em criar os personagens, eu crio os personagens antes pra depois criar o cenário. Deve ser porque apesar de sci-fi, meu trabalho também tem muito humor. E eu adoro pessoas, então, criar personagens primeiro me deixa com vontade de criar o resto e não o contrário.

Eu lembro que ouvia toda vez os autores falarem “Você criou o personagem, ele se escreve sozinho”, eu achava que era balela, só que não é. É real. Uma vez que você criou a personalidade do seu personagem, ele vai se escrever sozinho, você o coloca numa situação e aquela coisa se desenvolve de uma maneira que tem coerência com o personagem. Então não sei te dizer qual que gosto mais, porque gosto de todos.

 

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De que forma os sites e blogs ajudam o artista hoje no País?

Ajudam demais. Quadrinhos é aquela coisa… Todo mundo pode fazer quadrinhos, uma vez me perguntaram isso e eu respondi: todo mundo pode fazer quadrinhos. Mesmo que você que não desenha bem, você tem uma narrativa legal, faz o quadrinho. Você escreve bem, mas não sabe desenhar? Chama um desenhista. Você não escreve legal, faça a arte e convide um roteirista. Todo mundo pode fazer quadrinhos, o que vai diferenciar de um quadrinista de quem não é: é fazer. Isso por causa da internet que a gente consegue alcançar leitores e com apoio de blogs, de youtuber e da galera que divulga obviamente que você vai atingir mais gente, do que você atingiria sozinho, então sim é muito importante.

 

Cita um artista favorito nacional e internacional?

Tem tantos que gosto que até difícil de escolher um só, mas se eu for escolher um internacional seria Jaime Hernandez, de Love and Rockets. O nacional seria a minha amiga Camila Torrano.

 

Arte da Capa de As Empoderadas nº1, por Erica Awano

Qual foi a maior dificuldade que você passou na área por ser mulher?

Eu fui muito bem aceita pelo Role Independente, nem posso reclamar muito, mas tenho consciência que fui aceita por ser troncuda, ser um tanque. Uma menina mais insegura ia ficar com problemas. Tanto que demorei 10 anos para expor meu material por causa desse tipo de insegurança.

Teve uma vez que estava batendo um papo com amigos e chega um cara que é amigo em comum deles, mas não era meu amigo. A gente falando de super-heróis – e eu adoro super-heróis- e dei minha opinião e esse cara me olhou de cima a baixo, como se eu não fosse nada, porque eu estava falando disso e eu olhei para ele, depois para os caras que só fizeram aquela carinha “não, não maltrata”, e eu falei “Ok, só não vou maltratar porque é amiguinho de vocês”. Mas eu tenho mais de vida de leitora do que ele tem de vida.

O que eu sempre escuto é que os caras fazem isso porque nem se tocam, porque a gente está inserida num mundo machista e quando o cara vira para mim e diz:

“Você desenha pra caramba, você desenha como homem”.  – Como assim? Não, eu só desenho e isso não depende de gênero.

Mas eu tenho noção, tem uma amiga que fala brincando que sou feminista diplomata, porque eu tento conversar com os caras, tento esclarecer.

 

Que dica você daria pra quem está começando e quer ser quadrinista?

Primeira coisa é: se quer ser quadrinista leia, leia de tudo, veja tudo, escuta de tudo, porque quem só se “alimenta” de quadrinhos, não consegue produzir quadrinhos. Tem que ter uma bagagem cultural legal, isso é legal pra deixar tudo mais rico. Se for desenhista, desenhe todo dia. Se for roteirista, escreva todo dia. Se você faz as duas coisas, se vira, mas escreva e desenhe todo dia.

Fora isso, use a internet, é uma maneira de chegar ao seu leitor, muito barata, porque você não depende esquema de publicação que envolve estoque, impressão… Então com a internet você chega ao teu leitor fora do país, você consegue atingir as pessoas, divulga, faz barulho, é importante isso. Use a internet que é uma boa ferramenta.

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Germana Viana

 

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Gostou e quer saber mais sobre os trabalhos da Germana?

www.lizziebordello.com

https://www.facebook.com/LizzieBordelloEAsPiratas

https://www.facebook.com/cbgibi

https://www.facebook.com/pagucomics

 

Germana obrigada pelo seu carinho e sua atenção!

Se você quiser mandar sua sugestão de conteúdo entre em contato através do e-mail [email protected] e siga-nos em nossas redes sociais.

Até mais!

Natália Furtuoso & Isabelle Prado

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