Quarteto Fantástico | Leia nossa análise do filme

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Um sci-fi incompleto e sem nada de fantástico.

De um lado, a primeira super-equipe (criada por Stan Lee e Jack Kirby em 1961) da Marvel Comics e um dos maiores sucessos de seus quadrinhos. Do outro, a quarta tentativa (contando com a versão de Roger Corman) de transformar as histórias de Reed, Sue, Johnny e Ben em filme. No fim das contas, a qualidade que os personagens merecem ser retratados parece que ainda não foi encontrada.
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Tentem achar no filme alguma cena que faça referência a essa arte. Divulgação.

Em um momento em que vemos diversas adaptações de quadrinhos ganharem vida por diferentes estúdios, a variação de gênero se torna algo naturalmente necessário para o destaque no meio da multidão e a evolução do próprio mercado. O reboot de Quarteto Fantástico não só veio com esse pensamento como também precisava se diferenciar dos outros dois filmes anteriores, produzidos pela própria 20th Century Fox e que nunca conseguiram o sucesso nem a qualidade pretendidos. Longa desenvolvido pelo mesmo estúdio,  X-Men : Primeira Classe é um bom exemplo de reformulação que encontrou sua própria personalidade e que até poderia ter servido de referência, mas não parece que foi o caso.

Com a intenção de dar um tom mais sério e atrair principalmente o público jovem, o californiano Josh Trank foi convidado para a direção, depois do razoável sucesso de Poder Sem Limites. Badalado por também ter sido escolhido para trabalhar em um dos spin-offs da nova safra de filmes de Star Wars, ganharia a companhia de um elenco jovem mas já bem reconhecido do cinema e televisão. Miles Teller (Whiplash) como Reed Richards / Sr. Fantástico, Kate Mara (House of Cards) como Susan Storm / Mulher Invisível, Michael B. Jordan (Creed) como Johnny Storm,  Jamie Bell (As Aventuras de Tin Tin : O Segredo de Licorne) como Benjamin Grimm / O Coisa e Toby Kebbell (Planeta dos Macacos : O Confronto) como Victor Von Doom formam o elenco principal. Entretanto, o filme teve uma produção um tanto quanto conturbada, já que sofreu refilmagens, teve sua versão 3D cancelada e o diretor foi considerado difícil de se trabalhar, tanto que um dos produtores, Simon Kinberg (que também trabalha com a Lucasfilm) pode ter sido quem levou certas informações que fizeram com que Trank fosse desligado da franquia criada por George Lucas.

Quanto assistimos à Quarteto Fantástico só podemos imaginar o quanto isso influenciou no produto final que chega até nós.

 A trama do filme consiste em nos apresentar o nascimento do grupo de heróis que após seu acidente com a máquina que os transporta para uma espécie de dimensão paralela chamada Terra Zero, ganha poderes que fazem com que seus corpos sejam alterados. Diferente do filme de 2005, este mostra a infância de Reed e Ben, o início da amizade dos dois e de modo breve, a relação de cada um com suas famílias.

Mas a partir daí, determinadas situações começam a não fazer muito sentido, como o fato do personagem de Teller ter a genialidade de criar uma espécie de teletransportador, mas não conseguir exibi-lo para ninguém cientificamente importante durante anos, além de seus professores em uma feira de ciências (que mesmo assim, seriam os primeiros a acreditar, não a duvidar). Durante alguns momentos do longa, personagens são simplesmente esquecidos (no caso, Von Doom) ou ignorados  pelos outros (Susan) em situações em que teoricamente deveriam estar juntos.

Durante entrevistas nos últimos meses, Josh Trank admitiu a influência do trabalho de David Cronemberg (A Mosca), especialmente em relação aos personagens, suas transformações físicas e comportamento pós-acidente. Isso é algo totalmente perceptível e muito bem utilizado, apesar dessas mudanças serem melhor originadas para alguns do que para outros.

Se tratando dos poderes, fica evidente que os efeitos especiais do filme sofreram algum tipo de contenção de gastos ou opção por diferentes técnicas, pois em diversos momentos percebe-se a artificialidade gráfica de corpos e até das chamas em Johnny Storm. É natural que diferentes empresas participem com  parte das fatias dos efeitos de um blockbuster, no caso, MPC, Pixomondo, Rodeo FX e Weta Digital colaboraram para Quarteto Fantástico, mas alguma ou algumas delas não cumpriu seu papel em alto nível (e isso pode ter várias razões). Independente de estilo de direção, é possível notar que mesmo em cenas externas, os enquadramentos ficam simplesmente focados nos atores, evitando a exibição do que há ao redor. Entretanto, mesmo com o uso de plano americano, primeiro plano ou meio primeiro plano é visível a substituição de ambientes reais por uso de fundo verde.

Toby Kebbell interpreta Victor Von Doom (divulgado inicialmente como Victor Domashev). Divulgação.

Toby Kebbell interpreta Victor Von Doom (divulgado inicialmente como Victor Domashev). Divulgação.

Quarteto Fantástico ainda é um filme de origem, utilizando boa parte de seu tempo tentando apresentar os personagens, suas personalidades e funcionamento de poderes. Seus 100 minutos acabam não sendo bem utilizados para equilibrar desenvolvimento e ritmo, dando a impressão de que sua edição acelera os últimos 20 minutos (algo que uma  futura versão estendida pode melhorar) para torná-lo mais parecido com o que já existe na mão de outros estúdios e rapidamente dar o status de super equipe aos jovens.

Esse fator prejudica o modo como os personagens deveriam mostrar mais de si, dessa forma, suas características muitas vezes são simplesmente citadas mas não demonstradas. Mesmo com esses empecilhos, o elenco consegue desenvolver bom entrosamento (destaque para Reg. E. Cathey, que interpreta o doutor Franklin Richards) e química que pode cativar os espectadores durante boa parte do tempo que passam nos laboratório. Doutor Destino é um vilão que até surpreende em algumas (boas) cenas, é violento como nunca um personagem Marvel foi nas telonas, mas quando enfrenta o Quarteto, basicamente só se utiliza do artifício de jogar pedras em uma exibição de telecinese mais elaborado.

Meio perdido entre trazer ficção científica (uma escolha que faz total sentido, se o mercado for analisado em busca de lacunas e “oceanos azuis” para exploração) mas buscando atender a necessidade de mostrar cenas heroicas de um grupo em formação, o longa fica no meio do caminho entre os dois segmentos. Basicamente, o Quarteto Fantástico começa quando o filme termina, o que não é ruim, quando se almeja criar uma espécie de prelúdio (algo que Batman Begins faz muito bem).

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Sabe quando você passa de ano “raspando”, na escola? Quarteto Fantástico é o mesmo caso. Uma impressão que se pode ter é que a Fox desenvolveu este filme, que mesmo com os claros problemas de produção, refilmagens e orçamento abaixo da concorrência (R$ 120 milhões), precisaria ser lançado por questões de manutenção dos direitos de adaptação e por ser menos pior seguir em frente do que largar o barco. Até o momento, uma sequência deste filme já está agendada para Junho de 2017. Se algo no planejamento será modificado ou se o público irá dar um voto de confiança, são questões que agora ficam no ar.

Mas a única resposta certa é que o Quarteto Fantástico merece um tratamento muito melhor do que teve até hoje em qualquer um de seus filmes e nisso, até o Doutor Destino concorda, não é Victor?

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